terça-feira, 10 de maio de 2016

Miguel Soll: manifestos visuais de uma geração



Miguel Soll

Miguel Soll, 22 anos, é um jovem fotógrafo de Porto Alegre, Brasil, estudante de Comunicação Social. O Miguel fotografa desde os 16 anos, quando aprendeu o essencial da composição e do fotográfico e se apaixonou pela fotografia como forma de combinar um espírito livre com a necessidade de expressar a sua juventude como tantos outros fotógrafos, desde Larry Clark e Nan Goldin a Ryan McGinley ou Mike Brodie, o Polaroid Kidd. 

Através da fotografia, ele explora de forma espontânea, com uma Olympus Mju, os momentos que passa com os amigos nos mais diversos lugares e situações, do âmbito privado ao espaço público, da casa e da escola à rua, criando narrativas ficcionais que se articulam com elementos biográficos da sua história de vida assim como documentam a sua própria experiência. 

A obra pessoal de Miguel Soll até ao momento é sobretudo um manifesto da sua geração e assim tem sido entendida em todo o mundo. Em Julho de 2015, ele expôs na galeria Galpon, em Porto Alegre, as fotografias da sua série Natural, onde questiona o que é «natural» (as plantas, a selva, o ficar nu) ou as maneiras artificiais de se tornar natural (drogas, álcool). 

Essa exposição marca uma abordagem ao mundo da arte, mas é sobretudo através da Internet que o seu trabalho tem vindo a alcançar uma dimensão global, particularmente através da divulgação dos numerosos trabalhos na área da fotografia de moda jovem e das entrevistas e solicitações de diversos magazines de fotografia contemporânea, onde vai construindo o seu estatuto de fotógrafo irreverente, de alguém que tanto ama como odeia a sua cidade, que tanto ama a fotografia como odeia tudo o que nela é comercial e que apenas pretende ser livre para criar e trabalhar naquilo em que acredita e que confere sentido à sua vida, para além do suporte financeiro. Um fotógrafo que, além da imensa produção pessoal e editorial, ainda se envolve também no registo dos protestos de rua e denuncia, porém menos do que gostaria, pela via da fotografia e da entrevista, a proteção que o Estado garante às corporações e ao capital contra as pessoas, que questiona tudo e que acredita e participa na luta pela defesa das comunidades locais de qualquer tipo (de agricultores, músicos, artistas) contra o imperialismo global.


F. J.


Miguel Soll 







segunda-feira, 21 de março de 2016

Tânia Frade: fotografia, humanidade e natureza, uma imersão na floresta


Tânia Frade. Fotografia do projeto «Shinrin Yoku», 2014.

Tânia Frade, 26 anos, é uma jovem fotógrafa de Aveiro. Licenciada em Fotografia no Instituto Politécnico de Tomar, trabalha como fotógrafa freelance, designer e front-end developer. O interesse pela fotografia nasceu aos 16 anos, «quando atravessava os corredores da escola, rodeada de fotografias analógicas e de amigos com câmaras fotográficas ao pescoço.» Um dia o pai ofereceu-lhe uma câmara analógica e ela nunca mais parou. Desde então, o analógico é a sua paixão. Para os trabalhos profissionais usa o digital, mas para projetos pessoais apenas fotografa em analógico. 

A fotografia (Maria Louceiro, Tina Sosna e Ryan McGinley), o cinema (Sofia Coppola e Wes Anderson) e a música (bandas de post-rock como Mogwai, Sigur Rós, Mono, Explosion in the Sky e Godspeed You! Black Emperor) são os campos que mais a inspiram quando se trata do desenvolvimento dos seus projetos. Ou seja, como ela nos diz, «tudo inspirações que envolvem humanidade e espontaneidade inseridas na natureza.»

O ser humano integrado na natureza é precisamente o tema do seu projeto Shinrin Yoku (Forest Bathing em inglês). Trata-se de um projeto no qual ela coloca muito daquilo que é, uma pessoa ligada à natureza e que aprecia a sua simplicidade e beleza. No final, o projeto deve refletir exatamente isso, o que a natureza é mas também aquilo que ela é. Humanidade e natureza, um “banho” de imersão na floresta. O projeto teve início no final de 2014, já no Outono/Inverno. Até agora, a autora é a única pessoa envolvida na sua realização, mas está aberta a possibilidade de integrar mais pessoas no decurso do projeto. As palavras da artista, que já foi publicada online no magazine Shooting Film (November 5, 2015), ajudam-nos a entender melhor os seus objetivos para o trabalho artístico:  «Faço questão que o meu trabalho seja simples, mas quero encher os olhos e o coração de emoções de toda a gente...e claro, de mim própria. A natureza é vida, simples e bonita. O analógico é também assim e eu quero que o meu trabalho seja igual.»

F. J.


Tânia Frade 

terça-feira, 8 de março de 2016

Francisco Sá Fernandes: This could be anywhere in the world


Francisco Sá Fernandes, Da série This could be anywhere in the world, 2016.


Francisco Sá Fernandes (Porto, 1994) estudou Artes Visuais no ensino secundário, fez um curso profissional de Som e atualmente estuda Som e Imagem na Universidade Católica do Porto. Interessa-se por artes visuais em geral, desde o cinema à fotografia, à escultura e à pintura, mas o seu trabalho centra-se mais na área de fotografia e cinema. Os projetos fotográficos já realizados, e apresentados no seu espaço digital na plataforma Behance, mostram uma atenção particular às novas formas do mundo, particularmente as criadas pela arquitetura e pelas tecnologias digitais, e o comportamento do indivíduo no seu quotidiano. Os volumes construídos, os espaços que eles configuram e os elementos de alta tecnologia que os complementam contribuem tanto para a construção do discurso visual como para a abordagem das problemáticas do sujeito no mundo, particularmente da sua reação ao ambiente em que se insere. A fotografia é objetiva, cruel e coloca as personagens contra superfícies metálicas, ambientes inóspitos, configurações insólitas, longe de qualquer ambição poética.

O projeto This could be anywhere in the world (2016) aborda os efeitos da globalização na arquitetura. Integralmente desenvolvido a preto e branco de alto contraste, mostra as superfícies exteriores e os volumes quer contra fundos negros sem qualquer gradação, quer contra fundos integralmente brancos dos quais apenas se podem distinguir pelas linhas de contorno vincadas a negro ou pelos elementos minimalistas repetidamente usados na construção. É maioritariamente nestes que aparecem os meios-tons, resultado das interpenetrações de luz e sombra ou dos raros reflexos de céu nas superfícies envidraçadas. 

A problemática inerente a este trabalho pode ser melhor entendida com a leitura da descrição do autor, que tanto visa abordar o aspeto polémico da estética da arquitetura contemporânea de tendência minimalista como contribuir para a discussão da identidade da arquitetura e das cidades na era da globalização, particularmente da relações culturais entre o local e o global. 

«Numa altura em que o caminho da sociedade moderna tende a seguir o trilho da globalização, questões podem ser levantadas pela herança cultural que deixaremos para as futuras gerações, nomeadamente na arquitetura.


As novas construções que vou observando, levantaram em mim algumas questões. Na medida em que o caminho que a arquitetura está a seguir pode, na minha perspetiva, pôr em causa a identidade própria do nosso território. Isto porque os novos edifícios tendem a rejeitar a ornamentação e os cânones de construção tradicionais que os tornava característicos e típicos de um determinado local. Em vez disso, parece haver uma busca pelo uniforme. O minimalismo que se faz sentir nos novos edifícios concede um aspeto moderno e futurista às cidades, no entanto acaba por dissolver os traços fundamentais da sua identidade.

Esta série funciona como uma exposição desse tema, não tomando uma posição de crítica direta, apenas levanto a questão para que as pessoas possam tomar a sua posição. Todas as fotografias foram produzidas na cidade do Porto, mas na realidade, e a meu ver, poderiam ter sido tiradas em qualquer parte do Mundo. Isso por si só já fundamenta as minhas dúvidas e questões sobre esta problemática.»


F. J.


Francisco Sá Fernandes








quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Nádia Maria: ut photographia poesis


Nádia Maria, Do projeto/série «Origins», 2015.


Ut pictura poesis é um velho adágio do poeta romano Horácio que compara a pintura à poesia no seu propósito de apelar a algo que persegue toda a expressão artística. Durante o período do Renascimento Clássico, no século XVI, o princípio horaciano dividiu os pintores italianos; enquanto os florentinos faziam a distinção entre as duas artes, os venezianos aproveitavam a comparação para estabelecer a ligação entre a pintura e a poesia. No século XVII, com a ascensão do Barroco, o conceito extravasa as fronteiras italianas e torna-se um princípio da crítica da arte entre os teóricos franceses e ingleses, indo, por exemplo, da defesa do paralelismo entre as duas artes à supremacia de uma sobre a outra. Sobretudo porque se tratava ainda de elevar a pintura à categoria de arte liberal. Hoje, aqui, esse princípio interessa-nos porque ele proporciona, convenientemente adaptado, uma das chaves para a aproximação à fotografia de Nádia Maria. Diga-se, desde já, mais na intersecção das artes do que na sua distinção.

Nádia Maria é uma fotógrafa brasileira nascida em 1984, em Bauru, São Paulo. Ela começou a fotografar aos 7 anos, com a câmara fotográfica do seu pai, fazendo fotografias das suas bonecas. Com o passar dos anos, ela estudou e explorou a fotografia e aos 18 anos fez o curso de Fotografia do SENAC/Brasil. A sua relação com a câmara fotográfica e as imagens que capta também nasceram durante a infância, mas tornaram-se mais profundas na adolescência, servindo-lhe como um diário íntimo dos seus sentimentos e transformações pelas quais passava durante cada fase da sua vida. Com uma personalidade introspectiva, o foco da sua inspiração está na poesia, e ela tem a fotografia como a sua escrita, os seus sentimentos mais íntimos, a escuridão e a luz da sua vida. Um certo barroquismo, um movimento ascensional pictórico (de raiz veneziana?), o tenebrismo e o monocromatismo cruzam-se com o trepidar dos corpos nas exposições longas, nas múltiplas exposições e nas sobreposições evanescentes que são a matéria informe das suas imagens.

A imagem que partilhamos no blogue e as que a acompanham no Instagram e no Tumblr da Fotografa Jovem Portuguesa e do Mundo Lusófono pertencem ao projeto/série «Origins», que tem o seu princípio na luz. Segundo a artista, «Através da luz nós podemos ler toda a história do Universo, que é a nossa história carregada pela luz. A luz é a nossa conexão com o Cosmos. "Origins" retrata um diálogo íntimo com o tempo e a realidade. Fala sobre a formação dos corpos, a identidade diante do espelho e as faculdades ocultas que regem os órgãos. Esta série narra um diálogo sobre uma história já concluída, da qual ainda desconhecemos o início e o fim e foi inspirada pela fase em que atravessei na minha vida diante do nascimento de minha filha e a deficiência visual com que ela nasceu.» 

F. J.



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Maria Côrte-Real: a fotografia e as problemáticas da identidade feminina



Maria Côrte-Real, IDEM + ID, 2013 [Película de 35mm. Impressão de prata, 40x50cm].


«A identidade é como um trabalho doméstico: “faz-se, faz-se, e nunca se tem nada pronto”.» Assim começa Maria Côrte-Real por definir o seu projeto de trabalho sobre a construção da identidade feminina aqui apresentado. IDEM + ID (2013) é um projeto de fotografia encenada que procura problematizar o eterno recomeço da definição da identidade da mulher através da performatividade diante da câmara fotográfica. Numa pesquisa estética que nos conduz a um certo sentido de surrealismo e de absurdo a partir da justaposição de diferentes elementos numa mesma imagem, a artista vai-nos sugerindo conceptualizações de diferentes estados de mulher, partes de um processo de metamorfose contínua. 

Maria Côrte-Real nasceu em Coimbra, em 1983. Estudou Artes Visuais - Fotografia, na Escola Superior Artística do Porto entre 2010 e 2013, frequentando, atualmente, o Mestrado em Estudos Artísticos, com especialização em Estudos Museológicos e Curadoriais, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Participou em exposições coletivas, quer como artista quer como curadora. Profissionalmente, tem desenvolvido o seu trabalho de fotografia na área do Teatro e das Artes do Espetáculo. 

F. J.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Maria João Gonçalves: a fotografia e a exploração do «eu» íntimo


Maria João Gonçalves, Shine on me: 19 // 52 Weeks, 2015.


52 Weeks é o título de um projeto de Maria João Gonçalves que consiste em tirar um autorretrato por semana. Trata-se de um trabalho inspirado no blogue Gente Sentada, de Marta Filipa Costa, e nasceu do desejo da autora de explorar o autorretrato fotográfico e de se desafiar a si própria de uma forma criativa. Este projeto em curso vai já na sua vigésima nona semana, sendo articulado com outros trabalhos fotográficos sempre numa relação muito íntima com a vida quotidiana da autora.


Maria João Gonçalves nasceu em Braga há 25 anos, cidade onde vive, estudou e trabalha. Licenciada em Estudos Culturais pela Universidade do Minho, leciona História e Escrita Criativa a seniores. A fotografia ocupa um lugar muito importante na sua vida, pois tanto lhe permite ter um olhar sobre os momentos vividos como é um elemento fundamental no planeamento e desenvolvimento da sua atividade criativa. Comprou a sua primeira DSLR aos 19 anos e desde então nunca mais abandonou a fotografia. Autora de um blogue, mildiasdechuva, e muito ativa nas redes sociais ou nas plataformas de divulgação de novos projetos criativos, é por lá que encontramos a fotografia, lado a lado com a escrita, ambas semeando significados. Porquanto o projeto 52 Weeks seja totalmente conduzido em digital, a fotografia analógica também está muito presente na sua prática criativa, principalmente nas fotografias de viagens e dos lugares que visita. Um hibridismo de meios, técnicas e géneros, entre o visual e o textual, designa a sua produção cultural, ao mesmo tempo que a fotografia, em particular o autorretrato, lhe permite explorar o seu «eu» íntimo, os seus gostos, o seu estado de espírito ou o seu corpo, na sua cidade ou no seu espaço pessoal.

F. J.



domingo, 17 de janeiro de 2016

Susana Quevedo: a fotografia como exploração de um lado mais íntimo e pessoal do quotidiano 



Susana Quevedo, Self-Portrait in a Mirror, 2015.


Hoje partilhamos o trabalho de Susana Quevedo, uma jovem artista plástica operando a partir de Caldas da Rainha, onde nasceu e estudou. O seu trabalho centra-se principalmente na fotografia, na pintura e no desenho, meios a partir dos quais explora os conceitos de tempo, memória, identidade, autorrepresentação, atmosfera, ausência e presença (Cargo Collective). No texto que redigiu para esta publicação, a artista fala-nos do seu envolvimento com o fotográfico, das suas inquietações em termos criativos e como é que a fotografia, geralmente monocromática, como a sua pintura e o desenho, é usada para explorar um lado mais íntimo e pessoal do quotidiano, tomando o corpo (o autorretrato) como elemento de mediação.

«Susana Quevedo, 23 anos. Licenciei-me em Artes Plásticas, em 2015, pela Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha, cidade onde resido. Trabalhei quase sempre nas áreas da pintura e do desenho durante o curso, mas a fotografia esteve sempre presente e sempre foi importante. A fotografia, a digital principalmente, era e é o meio mais imediato de obter imagens, de encontrar uma forma de expressão rápida. E isso sempre me interessou e fez sentido quase por uma questão de necessidade obsessiva de fazer, de produzir, de criar. (Por oposição ao desenho e à pintura, ambos processos mais demorados.)

Entendo a fotografia como uma forma de explorar a minha relação comigo, com as coisas e com o mundo. Creio que o que me leva a fotografar acaba por ser o mesmo que me leva a pintar ou a desenhar: essa necessidade de fazer que acima referi. A fotografia é talvez o meio mais rápido de apaziguar essa inquietação.

Para já, o trabalho desenvolvido no âmbito da fotografia é, na sua maioria, digital. Embora já tenha feito algumas experiências com fotografia analógica e instantânea, preciso de explorar mais estas duas vertentes da fotografia.

Mais concretamente, as minhas fotografias estão relacionadas com questões como a memória, a minha relação com os lugares (uma relação emocional talvez) e com uma certa nostalgia. Também há algo nelas que se relaciona com o efémero, com o fragmento e com a corrosão provocada pela passagem do tempo (ou como tudo é breve). Os lugares que fotografo funcionam, muitas vezes, como um reflexo daquilo que sinto. Costumo dizer que as minhas fotografias andam em torno desta ideia: eu e os lugares, os lugares e eu. O monocromático é uma característica transversal a todas as áreas que exploro – a fotografia, a pintura e o desenho. E em todas estas áreas, desenvolvo trabalhos que, de alguma forma, se relacionam entre si.

O autorretrato sempre foi uma característica fundamental nas minhas fotografias. Creio que foi o ponto de partida para muito do trabalho fotográfico que desenvolvi até hoje, foi o que me levou a explorar a área da fotografia continuamente. Sempre me fez sentido retratar-me: como forma de expressão pessoal e íntima e, simultaneamente,  como tentativa de retratar a condição solitária e impermanente do ser humano. Em suma, o autorretrato serve para explorar um lado mais íntimo e pessoal do quotidiano, o vazio e uma certa noção de solidão. Talvez por isso, também me faça sentido fotografar os espaços vazios, abandonados, isolados, degradados – funcionam como reflexo da própria condição humana.» 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

João Taveira, fotografia e arquitetura


João Taveira, Sede EDP, Cais do Sodré, Lisboa, 2015.

Esta semana, o nosso blogue apresenta o trabalho de João Taveira (n. 1996) em torno da interpretação do espaço arquitetónico e urbano. O João começou a fotografar com 16 anos com uma Minolta analógica, o que o levou sobretudo à fotografia de rua. Depois entrou no curso de Arquitetura e começou a interessar-se por fotografia de arquitetura e a entusiasmar-se pela possibilidade de ligar os dois mundos. 

Fotografia e arquitetura encontram-se assim intimamente relacionadas no seu modo de entender e construir o mundo. Viagens exploratórias regulares a obras emblemáticas da nova arquitetura portuguesa ditaram um modo de abordagem fotográfica que se foca não só nos edifícios em si, na sua monumentalidade e pormenores, mas também no ambiente e nas vivências que essa mesma arquitetura consegue criar e assim adquirir um sentido pleno. 

A fotografia que partilhamos aqui e as que acompanham a divulgação deste trabalho no Tumblr e no Instagram da Fotografia Jovem Portuguesa procuram documentar, entre muitas, o empenho do João Taveira em captar o caráter peculiar da arquitetura moderna e das suas vivências (ver o Flickr e o Instagram do autor), uma via que pretende seguir embora reconheça que este tema não vai muito de encontro ao trajeto que os jovens portugueses tendem a perseguir. No entanto, sabe que o caminho faz-se caminhando e a singularidade é a via!

F. J.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Bruno Silva, a fotografia e a construção das memórias de infância


Bruno Silva, Sem título. Da Série «1995», 2015.

Bruno Silva é um jovem fotógrafo do Porto que se mostra particularmente comprometido com a rua, os sem-abrigo e os bairros sociais problemáticos da periferia urbana do Porto, situações a que procura dar visibilidade, como o bairro de São João de Deus (no Público). Por força dos temas e por opção pessoal, as suas fotografias são maioritariamente feitas a preto e branco, de noite, nas horas imediatamente antes do nascer do sol ou sob os nevoeiros cerrados da cidade do Porto. Quase sempre em película e quase sempre levada aos limites em termos de exposição e revelação, de modo a acentuar o contraste e a intensificar o grão sob influência dos grandes mestres que o guiam, como Daido Moriyama, Paulo Nozolino ou Trent Parke.

O trabalho que agora apresentamos, 1995, é o primeiro de um «tríptico da memória», de três séries fotográficas que o autor quer explorar a partir de diferentes locais com diferentes intensidades. 1995 é o ano em que o autor conheceu a zona onde a maioria das fotos foram feitas. Seguir-se-ão 2005, ano em que o autor se mudou para Coimbra, e 20151995 propõe, assim, uma viagem aos lugares da sua infância. Dentro do seu estilo habitual, o autor trabalhou à noite, a preto e branco, com flash, à chuva, daí resultando um trabalho esteticamente muito forte feito de altos contrastes. Velhas casas, muros e redes de vedações, gatos em cima dos muros, árvores e vegetação, estruturas desativadas, diversos objetos reaproveitados, marcas de pneus de automóvel no pavimento e sinais de trânsito destacam-se dos fundos escuros pela ação da luz do flash, que ao incidir nas gotas de água da chuva cria também a trama de pontos brancos que domina todo o trabalho. Em suma, estamos na presença de uma série fotográfica que marca o reencontro do autor com lugares da sua infância, por vezes profundamente alterados e agora redescobertos fotograficamente em horas “proibidas” às crianças.


F. J.


Links:

Bruno Silva


Fotografia Jovem Portuguesa



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Helena Costa, a fotografia como um ato de liberdade


Helena Costa, Tapada de Mafra. Julho 2015.

Helena Costa é uma jovem de 21 anos, natural de Barcelos, mas a viver em Lisboa, onde estuda Medicina Veterinária. A fotografia entrou na sua vida de forma muito espontânea, há alguns anos, através das revistas da National Geographic, que seguiu desde muito nova, e, mais tarde, através de vários blogues de fotografia que começou a visitar. Influenciada por eles, começou, há uns anos, a fazer algumas experiências com máquinas usadas que foi adquirindo. A partir daqui a paixão foi crescendo. De uma forma muito natural sentia-se atraída para o ato de fotografar. Fotografava as pessoas que a rodeavam e os momentos que com elas partilhava e que sentia necessidade de imortalizar. No entanto, com a entrada na universidade, a fotografia começou a ganhar um espaço diferente e muito mais importante na sua vida. Enquanto o curso e os estudos a prendem a uma infinidade de prazos, exigências e responsabilidades, a fotografia representa pura liberdade. Permite-lhe sair, observar, ouvir, explorar, sentir mais, viver mais o mundo à sua volta com quem quer, como quer e quando quer. Permite-lhe apreciar a beleza da vida e de quem a acompanha nela, sem regras ou pressões.

As suas fotografias adquiriram visibilidade através do site de partilha de imagens Flickr. As fotos da Tapada de Mafra surgiram de uma junção dos dois mundos, veterinária e fotografia, e foram tiradas durante um estágio que lá fez, enquanto estudante de Medicina Veterinária. No seu conjunto, elas refletem a interação humana com a natureza e com os animais da tapada, sugerindo quão bela e genuína pode ser a vida vivida para além de quatro paredes. O facto de fotografar em película também lhe permite explorar mais essa relação orgânica, de certo modo mágica, muita íntima e pessoal, entre a vida e a fotografia.

F. J.


Fotografia Jovem Portuguesa

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015


Maria Louceiro, Made In Japan, Itoshima, 2014.


Maria Louceiro é uma jovem artista do Porto que trabalha em fotografia, ilustração e design. Tendo estudado inicialmente Engenharia de Minas e Geoambiente na FEUP, concluiu depois o curso de Design de Comunicação da ESAD, Matosinhos. A sua fotografia nasce do encontro e da descoberta com as suas áreas de formação. Desde cedo, interessou-se mais pela fotografia das minas do que propriamente em trabalhar nelas. Assim como procurou também, desde o início, aproximar a sua fotografia da ilustração. Dessa síntese nasceu uma imagética assente em tons únicos e formas planas, quase esquemáticas, essenciais, dissolvidas em ambientes etéreos, marcadamente monocromáticos, de modo a criar todo um mundo de sensações primordiais, a que certamente não é alheia a influência estimulante do fotógrafo japonês Yamamoto Masao.

O desenvolvimento desta linguagem visual e a sua aplicação às fotografias de concertos e aos retratos de músicos que faz desde 2010 levou-a, o ano passado, à Pitchfork, renomeada publicação internacional no âmbito da música moderna. Partilhámos já, no Instagram da Fotografia Jovem Portuguesa e do Mundo Lusófono, uma das mais recentes fotografias da Maria neste domínio altamente produtivo do seu trabalho, um retrato “melancólico” de James Kelly, da banda WIFE, no Amplifest 2015, com um poderoso brilho no olhar. 

Hoje publicamos uma imagem de um projeto realizado no Japão, no âmbito de uma residência artística em Itoshima, intitulado Made In Japan (2014), e que será, em breve, objeto de publicação em livro, já concluído. Neste trabalho, Maria Louceiro pode pôr em prática toda a sua experiência na criação de imagens capazes de concentrar em si a sugestão de ambientes e atmosferas de fuga e re-encontro com nós mesmos (ver mais imagens no site da artista em Behance). Campos de arroz permeados aqui e além por silhuetas humanas, paisagens marinhas, aves voando nos céus ou poisadas nos ramos das árvores e nos fios de eletricidade e telecomunicações ou em antenas de televisão, montanhas submersas em atmosferas etéreas ou pormenores arquitetónicos diáfanos e registos dos acontecimentos locais dão corpo a esta fascinante série oriental!

F. J.

Fotografia Jovem Portuguesa

sexta-feira, 27 de novembro de 2015


Mariana Rocha, Hot Days, 2015.

Agora que chegaram os dias frios, muito frios, antecipando dias ainda mais frios, relembramos os dias quentes do ano que agora termina. Para isso, trazemos um trabalho de Mariana Rocha. A Mariana é uma jovem artista do Porto, onde nasceu e estudou fotografia e artes visuais, primeiro na Escola de Soares dos Reis, depois na Escola Superior Artística do Porto e agora na Faculdade de Belas-Artes, no mestrado em práticas artísticas contemporâneas.


As fotografias reunidas sob a designação de Hot Days foram feitas durante dias ensolarados e quentes do ano de 2015, entre o Norte e o Sul de Portugal, sob um céu azul, em viagens, passeios ou períodos de férias escolares com a sua pequena point-and-shoot Olympus Mju II. Representam, por isso, momentos vividos nesses «dias quentes» e assim relembrados. Além disso, essas fotografias espontâneas simbolizam ainda uma dualidade entre sensações quentes e sensações de frescura que se podem observar em cabelos soltos ao vento à janela de um modelo especial de Peugeot 106 (com estofos feitos em ganga) dos anos 90 do século passado, a década em que a Mariana nasceu, e por isso aproximadamente com os mesmos anos, uma gota de suor que escorre pela sua perna, fotografada em casa no calor dos dias de Junho/Julho, uma t-shirt molhada nas costas do namorado em plena Primavera, uma mangueira que rega um jardim nos dias secos do Verão, a sua mão submersa nas águas translúcidas e serenas de uma piscina segurando uma aliança oferecida pelo namorado, o brilho de um fio de pesca numa falésia sobre o mar do Algarve, etc. (Tumblr).

O trabalho da Mariana é, de um modo geral, isso mesmo, uma espécie de álbum de recordações pessoais partilhadas com as pessoas e os lugares da sua vida, autobiográfico, umas vezes intimista outras remetendo para uma ideia de precaridade, umas vezes real outras vezes ficcional. Hot Days tem tudo isso! A vida como projeto artístico!

FJ



Mariana Rocha 



Fotografia Jovem Portuguesa 



  

sexta-feira, 13 de novembro de 2015


Camila Guerreiro, The Wanted. Da série «Feed My Poetry», 2015.


Camila Guerreiro é uma fotógrafa e ilustradora brasileira natural de São Paulo, que se dedica ainda à pintura e relaciona toda a sua criação visual com a literatura. Para ela, as diferentes formas de arte complementam-se. Mas a fotografia tem vindo a assumir um lugar cada vez mais importante entre as suas opções artísticas. Enquanto o desenho e a pintura a obrigam a uma disciplina de atelier, a fotografia permite-lhe sair, ver lugares, encontrar pessoas e falar com elas. É assim que ela realiza a maior parte dos seus trabalhos, sem projetos demasiado elaborados ou ambiciosos, fotografando as pessoas ou as coisas que a rodeiam diariamente ou percorrendo lugares novos, observando e fotografando a vida à sua volta, as pessoas e as suas histórias. Dando e recebendo. Atuando assim, ela integra a fotografia na sua filosofia de vida como algo íntimo, emocional, algo que faz de forma natural, curiosa, poética. Com prazer.

A sua forma preferida de trabalhar é o analógico. Para ela, uma maneira de escrever poesia com as imagens. De todas elas emana um imaginário nostálgico que está, de certo modo, relacionado com o uso da película fotográfica, mas também com momentos que quer recordar, com homenagens que quer prestar às pessoas ou instantes que quer ter para sempre presentes na sua vida. Com efeito, as  suas imagens podem ser consideradas um meio de dádiva e contra-dádiva no sentido da socialização entre pessoas de que nos fala Marcel Mauss. O que a vida e as pessoas nos dão e aquilo que nós temos obrigação de lhes dar está sempre muito presente nas fotografias de Camila Guerreiro.

The Wanted é a fotografia das mãos de sua mãe segurando um ramo de flores e faz parte desse projeto intitulado Feed My Poetry exposto este ano na Galeria NeoGalateca, em Bucareste, na Roménia, a convite da Freya Art, tendo já dado origem a várias publicações e entrevistas da artista a nível mundial. É um trabalho que mostra bem a ligação com as pessoas e os lugares que ela fotografa. Desenvolvido entre o Brasil e a Roménia, o projeto de exposição teve como objetivo estabelecer uma relação entre os dois polos geográficos (a América do Sul e a Europa de Leste) e as duas nações distantes, mostrando um pouco da visão da artista acerca da Roménia com um pouco do Brasil. The Wanted é acerca da sua mãe e fala-nos das tradições, da santidade, do amor, do vínculo que entre elas existe e dos momentos que elas recordam para sempre. Tal como a manhã em que a filha tirou a fotografia, a manhã em que a mãe cantava para ela, como fazia quase todas as manhãs. Como a mãe da Camila é tímida, ela tirou apenas a fotografia das suas mãos, porque queria ter uma recordação desse momento para sempre. A ligação entre mãe e filha vai para além do que nos é dado a ver nesta imagem de amor e ternura e liga-se à história que a viu nascer e irá perpetuar para sempre.

Esta e outras obras de Feed My Poetry, continuamente desenvolvidas pela artista (ver Tumblr), fazem do seu trabalho fotográfico uma coleção de versos colhidos a partir de fragmentos de histórias de vida pessoais que contribuem para o nosso equilíbrio e nos deixam presos à reflexão. Feed My Poetry é assim um projeto intimista entre a artista e as suas “musas”, retalhos da vida que estão na origem de cada poema visual!

FJ

Camila Guerreiro



Fotografia Jovem Portuguesa

sexta-feira, 6 de novembro de 2015



Valter Vinagre, Untitled #07. Da série
 «Rouge, Blue, Mauve et Vert». Kairouan, Tunísia, 2015.

Procurando alargar o espaço das trocas simbólicas que o nosso blogue propõe no âmbito da fotografia contemporânea entre diferentes gerações e diferentes mundos mas que tenham por base a lusofonia, publicamos hoje um trabalho de Valter Vinagre, fotógrafo nascido em Avelãs de Caminho, Anadia, em 1954. Valter Vinagre estudou fotografia no AR.CO, Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa, entre 1986 e 1989. Iniciou o seu percurso profissional em finais dos anos 80, realizando exposições individuais e participando em mostras e iniciativas de caráter coletivo. É autor de uma extensa bibliografia, recorrendo ao livro como um meio de divulgação dos seus temas fotográficos. De início ligado a uma fotografia próxima do registo documental, o seu trabalho passou a interiorizar um exercício mais reflexivo sobre a imagem, criando discursos sobre os significados associados à paisagem, à viagem e ao lugar da cidade. O trabalho «Rouge, Blue, Mauve et Vert» resultou de uma residência artística em Kairouan, na Tunísia, em Maio de 2015, a convite da União Europeia, na qual participaram 29 fotógrafos euro-magrebinos. Trata-se de uma viagem intimista em que o autor parte de «uma ideia de destruição, resistência, esperança e fragilidade». Este sábado, 7 de Novembro, inaugura em Kairouan a exposição resultante desta residência artística, «Project Kairouan», comissariada por Leila Souissi. O autor está ainda a preparar um livro que sairá durante o primeiro trimestre de 2016 e a tratar que se realize uma exposição em Tunis.

FJ




Valter Vinagre

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quinta-feira, 5 de novembro de 2015


Carolina Amorim, Virando Pedra, 2014.

O nosso blogue vai chegando a todo o mundo que fala português, visando a troca de saberes e experiências artísticas na esfera da fotografia. O presente artigo é sobre um trabalho da jovem fotógrafa brasileira Carolina Amorim, que, sendo jornalista e pós-graduada em comunicação, trabalha há dez anos como fotógrafa. Atualmente é editora de arte e fotografia na Malagueta Comunicação, empresa especializada em alimentação e cultura. Em 2012 iniciou estudos sobre outras formas da linguagem visual, retornando à fotografia analógica e à revelação por processo artesanal. Desde então, agregou novas técnicas de criação de imagem com a intenção de explorar as potencialidades estéticas do trabalho artístico, como as intervenções manuais com pinturas e costuras sobre a fotografia. O trabalho aqui apresentado, Virando Pedra, faz parte do projeto Painted Images and Hand Sew / Imagens pintadas e costuradas manualmente, e surgiu, precisamente, numa altura em que a artista procurava uma nova linguagem artística para o seu trabalho. Foi, assim, uma das suas primeiras fotografias pintadas à mão com tintas de aguarela. Integra-se numa pesquisa mais extensa sobre a relação do corpo e do tempo na fotografia que conduzirá a artista a outros projetos pessoais sobre esses temas, como o projeto NUances, ainda em desenvolvimento. Numa imponente paisagem pétrea de começo do mundo surge-nos uma figura feminina que parece integrar a paisagem da natureza, mostrando-nos a diferença de escala do corpo humano face ao universo e assim podendo simbolizar toda a nossa existência comum. O trabalho de Carolina Amorim é rico na diversidade de recursos criativos utilizados em cada projeto e na presença de várias linguagens artísticas. Painted Images and Hand Sew é disso um feliz exemplo.

FJ



Carolina Amorim

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Fotografia Jovem Portuguesa

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domingo, 1 de novembro de 2015


Alice Marcelino, Kindumba - Green Dread, 2015.

Hoje partilhamos o projeto Kindumba, de Alice Marcelino, sobre a linguagem do cabelo. Publicado na revista Caju, em Angola (2015), este trabalho alcançou já um reconhecimento global através da Internet. Alice Marcelino nasceu em Luanda, tendo vindo para Portugal numa idade muito jovem. Por cá viveu a maior parte do tempo. Ao longo da sua vida explorou diversas formas de arte, da dança ao teatro, até descobrir a fotografia como a sua principal forma de expressão. As fotografias de Alice Marcelino refletem o seu interesse especial nas histórias de vida individuais, explorando conceitos de identidade e subculturas, e o seu significado numa sociedade globalizada. Atualmente, Alice Marcelino vive em Londres onde está a concluir a sua formação em fotografia. Segundo a artista (True Africa), «o projeto Kindumba pretendia inicialmente explorar as relações entre Africanos e descendentes Africanos e o seu cabelo. Acabou por se tornar uma celebração da sua diversidade e beleza». É isso que esperamos venham a sentir ao apreciar este trabalho, que foi selecionado para a exposição Belong, Believe, Achieve da UEL - University of East London, inaugurada na passada terça-feira, 27 de Outubro, em Londres!

FJ